“Vamos ver se este ano corre melhor do que o ano passado…”
O regresso às aulas pode ser uma excelente oportunidade para experimentar algo novo: em vez de começar o ano a lembrar a criança do que foi no ano passado, experimente olhar para quem ela é agora e falar sobre o que pode vir a tornar-se durante este ano.
É uma frase que em jeito de desabafo transmite carinho e preocupação. Quase sempre dita nos primeiros dias de aulas, pode ter o efeito contrário daquilo que setembro nos pode trazer. Mais do que a passagem de ano civil, o início do ano letivo é um verdadeiro mês de mudança, de novos começos e oportunidades.
Ao mesmo tempo, o regresso às aulas é um período de transição que pode ser emocionalmente exigente para as crianças. A mudança de horários, de rotinas e de exigências, a reorganização do sono e as expectativas em relação ao novo ano podem trazer entusiasmo. E também podem trazer ansiedade e/ou preocupação, sobretudo quando trazemos para este recomeço os erros, as dificuldades e aquilo que antes “não correu bem”, como se o novo ano letivo fosse apenas uma mera repetição do anterior.
Porque é que o “vamos ver se este ano corre melhor” pode dificultar o recomeço?
Quando dizemos a uma criança que esperamos que este ano “corra melhor”, podemos estar, sem intenção, a transmitir-lhe uma expectativa que poderá influenciar o seu comportamento e desempenho.
Se aquilo que chega à criança é sobretudo uma recordação dos erros e dificuldades, existe o risco de entrar no novo ano com a sensação de que tudo se vai repetir. E, se assim for, para quê esforçar-se por fazer diferente? Em vez disso, podemos abrir espaço para uma pergunta que olha para o futuro: “O que gostavas que fosse diferente este ano?”
A verdade é que mudar faz parte. Todos mudamos, todos crescemos.
Já reparou que a roupa do seu filho já não serve?
Enquanto a roupa é mais fácil de notar, há outras mudanças que são muito mais discretas. Se o corpo já não cabe nas roupas do ano passado, também as regras, as rotinas e o nível de responsabilidade que lhe damos podem precisar de mais espaço.
A autonomia é uma necessidade psicológica fundamental, e relaciona-se com o sentimento de que podemos participar nas decisões que dizem respeito à nossa vida e agir de acordo com aquilo que faz sentido para nós.
Dar autonomia não significa deixar uma criança decidir tudo sozinha, nem significa retirar aos adultos o papel de orientação. Significa reconhecer aquilo que a criança já é capaz de fazer e criar oportunidades para que participe, escolha e assuma progressivamente mais responsabilidades. E as rotinas no quotidiano são um dos espaços onde essa autonomia pode começar a ganhar forma.
Construir a rotina em conjunto.
Ter horários relativamente estáveis para dormir, acordar, comer, estudar, brincar e descansar pode ajudar a criança a sentir maior segurança e previsibilidade perante as exigências do novo ano letivo. Construir uma rotina não significa necessariamente entregar à criança uma lista de horários que terá apenas de cumprir, podemos envolvê-la na sua construção.
Decidir em conjunto a que horas deve preparar a mochila ou deixá-la escolher a ordem em que prefere realizar determinadas tarefas são pequenos gestos que permitem juntar rotina e autonomia. A mensagem é importante: “esta rotina é também tua e a tua opinião conta.”
Se a criança mudou, a forma como a acompanhamos também pode mudar.
O regresso às aulas pode ser uma excelente oportunidade para experimentar algo novo: em vez de começar o ano a lembrar a criança do que foi no ano passado, experimente olhar para quem ela é agora e falar sobre o que pode vir a tornar-se durante este ano.
Afinal, se a criança cresceu, mudou e aprendeu, isso significa que também a forma como a acompanhamos pode crescer e mudar com ela.
E na sua casa, já reparou nalguma mudança no seu filho que mostra que ele está pronto para mais um passinho de autonomia este ano?
Regresso às Aulas | Setembro 2026
Referências
10 Recomendações para ajudar a criança no novo ano letivo, OPP & SNS (2026)
Pygmalion in the classroom, Robert Rosenthal & Lenore Jacobson (1986)